O voto no caixa do supermercado e a crise da toga

O cenário eleitoral brasileiro para 2026, de acordo com recentes pesquisas divulgadas pelos institutos Quaest e Ideia, desenha-se sob a velha conhecida lógica da economia. Enquanto determinadas lideranças se perdem em debates narrativo-ideológicos, o eleitor comum se dedica a fazer contas. É nesse cálculo que residem as variações do humor do eleitor e as inclinações que definirão o voto futuro.

Muito provavelmente o sucesso eleitoral em outubro virá não do acirramento da tensão ideológica, tampouco do discurso de que a democracia está ameaçada, mas sim por aquele que compreender, e souber transmitir, a matemática do cotidiano e o peso do custo de vida para a população. No pragmatismo das ruas, a ideologia é um luxo que o bolso apertado não consegue sustentar.

Dados dessas duas pesquisas revelam que para o brasileiro médio, aproximadamente 70% dos entrevistados, o custo de vida aumentou “um pouco” ou “muito significativamente”. Diante dessa percepção, não há narrativa política que sobreviva à realidade da tentativa de fechar as contas no fim do mês. Soma-se a isso o impressionante endividamento da população.

São esses números que evidenciam os desafios para uma reeleição do presidente Lula. O eleitor esperava muito e, hoje, tem a sensação de que pouco ou nada mudou em seu poder de compra.

Para além disso, o dado mais “explosivo” revelado pela pesquisa Ideia vem do deslocamento do “vilão” institucional na mente do brasileiro. O Poder Judiciário superou a corrupção política e a polarização como o principal fator de risco à democracia. Com 42,5% dos entrevistados apontando a concentração de poder nos tribunais superiores como uma ameaça real, o chamado “ativismo judicial” deixou de ser um termo técnico de juristas para se tornar uma desconfiança popular.

Essa percepção é perigosa porque as pessoas começam a ver o Judiciário, notadamente o STF, como um jogador em campo, e não um árbitro imparcial. Contribuem para isso as recentes notícias envolvendo o Banco Master e a tensão crescente entre alguns ministros e senadores.

Para a direita, esse sentimento é um ativo de mobilização; para o sistema, é um ultimato sobre a necessidade de restaurar a percepção de imparcialidade.

Essa desconfiança do Judiciário acaba transbordando para temas sensíveis, como o desfecho dos eventos de 8 de janeiro. A sociedade demonstra estar fraturada e sem consenso sobre a tão falada anistia ampla, geral e irrestrita.

O fato de 41% da população ser frontalmente contra qualquer forma de perdão estabelece um “teto de vidro” para candidaturas que tentam fazer da anistia sua única plataforma. Sem uma agenda econômica robusta, o discurso do perdão político corre o risco de ficar isolado em uma bolha que, embora barulhenta, não possui maioria para vencer um segundo turno.

Nesse cenário de busca por identidade e soluções, o brasileiro reafirma um nacionalismo pragmático. A busca por validação externa ou o alinhamento automático com figuras políticas internacionais, como as sinalizações de Flávio Bolsonaro ao presidente norte-americano Donald Trump, bate no muro da soberania popular.

Mais da metade dos eleitores acredita que as soluções para os problemas do país devem ser domésticas. O recado é claro: o eleitorado rejeita a interferência estrangeira e prefere líderes que demonstrem autonomia. Buscar a “bênção” de potências externas é visto mais como sinal de subordinação do que de prestígio.

No longo caminho eleitoral a ser percorrido nos próximos meses, o sucesso aparenta estar voltado para resultados e soluções práticas. Questões ideológicas fazem parte do cardápio dos “fiéis convertidos”, a militância de sempre que já tem seu voto muito bem definido. Mas para uma massa de eleitores, as pessoas comuns que não militam politicamente, a escolha, a princípio, vai ser baseada, a despeito dos muitos outros temas tão sensíveis quanto, na melhora das condições de vida. O voto de 2026, então, será decidido muito mais no caixa do supermercado do que em narrativas mirabolantes de redes sociais.

Por Jefferson Rodrigues, jornalista e consultor de Marketing Político

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