Quando candidatos correm, eleitores se cansam

Artigo publicado no jornal Folha de Pernambuco em 02 de junho de 2022

Talvez a maioria dos candidatos ainda não tenha se atentado para o fato de que a campanha eleitoral, que oficialmente se inicia no dia 16 de agosto, já vai começar com o eleitor saturado de tanta propaganda política. Em uma pré-campanha que se iniciou no dia seguinte ao término das eleições passadas, postulantes aos cargos do Legislativo e do Executivo – mandatários ou não – trabalham utilizando diversificados e exaustivos métodos para se fazerem conhecidos pela população.

De fato, o período pré-eleitoral é perfeito para mostrar às pessoas quem é o pré-candidato, de onde ele veio, o que pensa e o que defende. Como a Justiça Eleitoral proíbe qualquer ação que remeta ao pedido de votos fora da janela dos 45 dias de campanha, esse conjunto de informações trabalhadas antecipadamente deve objetivar a construção de uma imagem na mente do futuro eleitor.

No marketing político esse processo de construção é chamado também de reputação, e nada mais é do que uma ação de branding, movimento realizado no mundo corporativo para dar identidade e agregar valor a uma marca, a um produto ou a um serviço. Para qualquer um que almeje um cargo eletivo, trata-se de uma base fundamental para o processo gerativo do voto. Porém, na ânsia de se tornar conhecido e reconhecido, são cometidos erros que afastam o eleitor do bom debate político e, pior ainda, promovem a aversão política que não traz benefício a ninguém.

pai do marketing, Philip Kotler, define que: com intuito de melhorar o entendimento do público sobre uma marca é necessário empregar estratégias de identificação e diferenciação na definição dos elementos nome, objetivo, missão, visão, valores, posicionamento, arquétipos e personalidade. Eu diria que, neste período, criar mecanismos atrativos e não invasivos para garantir que o público compreenda cada um desses elementos é determinante para o sucesso de qualquer empreitada nas eleições de outubro. Porém, na prática o que ocorre é uma corrida desesperada pela atenção das pessoas sem um mínimo planejamento do que falar, de como falar ou de qual forma reter essa atenção.

Para qualquer pessoa comum que abre suas redes sociais com a intenção principal de obter entretenimento, a falta de tato dos pré-candidatos ao invadirem a timeline alheia para falar “politiquês” está criando uma barreira que será quase intransponível nos dias em que haverá permissão para pedir votos diretamente ao eleitor. A cada conteúdo ou ação incompreensível realizada, mais um tijolo é colocado neste muro que se ergue a cada dois anos e se reflete no grande percentual de abstenções (20,33% no primeiro turno de 2018, 21,30% no segundo turno do mesmo ano, 23,10% na primeira rodada de 2020 e 29,50% no último turno do pleito de dois anos atrás). Isso sem falar no quantitativo crescente de votos brancos e nulos.

As pessoas já estão saturadas e impacientes. Consequentemente, os candidatos terão que se empenhar para transpor diversas barreiras na tentativa de se comunicar com efetividade. E isso só será realidade se forem traçadas estratégias que proporcionem ao eleitor uma nova perspectiva sobre o que é participação política, a noção de como ele é importante nesta construção e a compreensão de qual é o papel do candidato ou da candidata no processo. A solução para criar uma boa reputação política, sem contribuir para a apatia eleitoral, é, portanto, entender que o cenário político no qual estamos imersos – além da digitalização das coisas e da própria evolução da sociedade – não permite mais a vitória pelo cansaço.

Israel Leal é jornalista e especialista em marketing político

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